O Grupo de Jovens “Amigos de São Pedro iniciou em março os ensaios para encenar a peça teatral “O assalto ao Trem Pagador”. Essa importante passagem histórica será vivenciada e apresentada à comunidade de Pinheiro Preto no próximo mês de julho, fazendo parte das comemorações alusivas aos 50 anos do município. Para a realização, a Prefeitura Municipal está auxiliando o grupo com incentivos e ações diretas. A apresentação artística será realizada no Ginásio Municipal, aos moldes do que é realizado anualmente na encenação de Natal.

A peça, escrita pelo historiador catarinense Nilson Thomé, foi adaptada para a linguagem teatral pelo Padre Gilberto Thomazi, que promete realizar mais este grande evento. O grupo de jovens “Amigos de São Pedro” dará corpo de vida aos personagens, relatando ao público participante a realidade histórica vivenciada em Pinheiro Preto. “Temos muito orgulho de ver essa veia artística desses jovens sendo desenvolvida e incentivamos para que atitudes como essas sejam sempre realizadas” esclarece o prefeito Euzébio Vieceli.

O evento histórico do assalto ao trem pagador em Pinheiro Preto é contado em livro pelo historiador, jornalista e professor universitário Dr. Nilson Thomé, da UNIPLAC de Lages.

Para situar o episódio, o assalto aconteceu depois que o Governo Imperial começou a construção, em 1890, da Estrada de Ferro São Paulo - Rio Grande, com a intenção de fixar imigrantes nas terras devolutas dos campos do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina, bem como nos sertões do Paraná e de São Paulo. Nos 20 anos da construção da Estrada de Ferro Norte-Sul, uma série de escândalos administrativos e financeiros gerou uma significativa leitura da sigla Efsprg: “Estrada Feita Só Para Roubar o Governo”.

A construção do trecho catarinense da estrada de ferro sacudiu os hábitos e os costumes da região, com a presença de oito mil trabalhadores braçais, oriundos do Rio de Janeiro, de Pernambuco, da Bahia, de São Paulo, recrutados inclusive em portos e em prisões. Na região corria muito dinheiro, inclusive cédulas de 500 mil réis até então desconhecidas pelos moradores das barrancas do Rio do Peixe. Com dinheiro farto e descanso semanal (o que não ocorria no tempo dos escravos) apareceram as bebedeiras, a prostituição e os assaltos. As noites nos acampamentos eram de farras desenfreadas. O pior acontecia nos primeiros dias de pagamento, quando eram frequentes os roubos e os assassinatos, com os cadáveres boiando em águas barrentas, ou sepultados embaixo dos trilhos.

Como conta Nílson Thomé, a Estrada de Ferro São Paulo - Rio Grande foi construída pelo sistema de “empreitada”, hoje conhecido como “terceirização”: “um grupo de contratantes executa um determinado trecho e se responsabiliza pelos salários dos trabalhadores na medida que estes forem completando as tarefas que receberam. Morador em Rio das Pedras (Videira), Zeca Vacariano contrata dois trechos de trilhos. Mas ao terminar a empreitada não consegue pôr em dia os salários em atraso. O empreiteiro inadimplente associa-se a empregados e arma um assalto ao funcionário da estrada que a cada final de mês percorre os trechos em construção para efetuar os pagamentos dos trabalhadores. Escondidos na floresta, winchester em punho, os membros da quadrilha esperam a passagem do trem pagador:

- É ele! Mas está acompanhado por dois capangas!

Matam os dois e ferem o pagador. Os assaltantes levam 360 contos. Um dinheiro sem tamanho. Mais de 15% da arrecadação do Tesouro do Estado, em 1910. Tropas federais e estaduais, bem como o corpo de segurança da empresa construtora, vasculham a região para caçar Zeca Vacariano e recuperar os 360 contos. Tempo gasto por nada. A floresta fechada não devolveu a quadrilha, muito menos o dinheiro roubado. O golpe gerou um atraso de dois meses na conclusão da estrada.

Uma cruz de ferro marca o lugar do primeiro "assalto a trem pagador" do Brasil, a 24/10/1909, em Pinheiro Preto (SC). Bem próximo, existe o túnel, que é objeto de atração turística em Pinheiro Preto. Teve sua construção encerrada em 12 de outubro de 1909. Foram oito meses de construção e o tempo para a perfuração da rocha de uma boca a outra, durou em média 180 dias. O túnel mede 62 metros, possui 4,40m de largura e 5,50m de altura.