Desde a Revolução Farroupilha, o Espaço Livre do Contestado passou por diversos conflitos armados nos séculos XIX e XX, até que a partir de 1917, veio a ser considerado Território do Contestado, organizado, tendo nele presente a ação do Estado a partir da criação e instalação dos novos municípios de Mafra, Porto União, Cruzeiro e Chapecó, somando-se aos já existentes de Curitibanos, Canoinhas e Campos Novos.

A Região do Contestado foi por nós delimitada dentro do Centro-Oeste Catarinense e assim denominada, como sendo uma parte do antigo Espaço Livre e, depois, do Território, por ter sediado os combates especificamente atribuídos à Guerra do Contestado.

Até nossa particular e singular intervenção iniciada em 1972, mediante um projeto de pesquisa em História, não se falava em “Guerra do Contestado”. Esta denominação foi dada por nós, pessoalmente, para identificar o conflito maior do nosso passado histórico. Até então, dizia-se: Guerra dos Fanáticos, Campanha do Contestado, ou outras atribuições, e não se tinha limites definidos em tempo. Da mesma forma, fomos nós que inserimos em 1972 a referência de “Região do Contestado” para este nosso espaço geográfico. Estas denominações foram oficializadas em 1974, quando da criação do “Museu Histórico e Antropológico da Região do Contestado”, pela FEARPE, em Caçador.

Cronologia

Dentre os eventos bélicos considerados como fatos históricos determinantes, na História do Contestado encontramos aqui, então, pelo menos treze (13) que foram importantes na História da formação do Homem do Contestado.

Em primeiro lugar, temos a revolta dos farrapos, que legou-nos entre 1838 e 1840 como herança os momentos de fundação da República Catarinense, em Lages, e o célebre combate entre farrapos e legalistas no Capão da Mortandade da Fazenda Forquilha, próximo ao Rio Marombas, na divisa entre Curitibanos e Campos Novos, a partir do que não poucos ex-combatentes se fixaram na nossa região a partir de 1840.

Adiante no tempo, observamos que muitos homens deste espaço foram ao Paraguai para lutar na Guerra da Tríplice Aliança, integrando vários batalhões da Guarda Nacional e dos Voluntários da Pátria. Os combates de 1866 não foram na Região do Contestado, mas o episódio é considerado interligado, pois envolveu nossos habitantes, ainda que em lutas fratricidas longe daqui, que regressaram.

O terceiro evento bélico de envergadura foi a Revolução Federalista, quando por aqui, entre 1893 e 1894, transitaram as forças maragatas revoltosas dos estanceiros Gumercindo e Aparício Saraiva e as colunas dos pica-paus legalistas republicanos, pois que, ao final, muitos foram os ex-combatentes que se refugiaram neste nosso espaço para fugir das degolas e aqui se estabeleceram com suas famílias.

Adentrando no século XX, no setor setentrional da Região do Contestado, rebelando-se contra a disputa por limites entre Paraná e Santa Catarina, o Major da Guarda Nacional Aleixo Gonçalves de Lima reuniu forças catarinenses e, indo á luta, enfrentou o regimento Policial do Paraná para defender a sua propriedade que estava sendo expoliada

Em 1906 e 1907, o ex-maragato e pró-catarinense Demétrio Ramos enfrentou o ex-pica-pau e pró-paranaense Manoel Fabrício Vieira, mais a polícia do Paraná, nos enfrentamentos que ficaram conhecidos como os Combates no Timbó, quando em disputa a exploração dos ervais nativos do Planalto Norte, entre União da Vitória e Canoinhas, dentro da Região do Contestado.

No ano de 1912, depois do ajuntamento em Taquaruçu, no Espaço Livre sob administração de Santa Catarina, o curandeiro José Maria “invadiu” em outubro a parte sob administração do Paraná e, apoiado pelos posseiros Miguel Fragoso e os Fabrício das Neves, foi artífice do célebre e famoso Combate do Banhado Grande, no Irani, quando ele foi morto e também morreu o comandante do Regimento de Segurança do Paraná.

Mais de um ano depois, em dezembro de 1913, quando reunidos em Taquaruçu (divisa entre Curitibanos e Campos Novos), em terras de Santa Catarina, os caboclos catarinenses são atacados por forças militares deste Estado, sob o olhar relutante do Exército e aí foi deflagrada a Guerra do Contestado, com combates, lutas, entreveros, entre a população catarinense e o Exército Brasileiro, com auge no Timbó em abril de 1915 e que se estenderam até janeiro de 1916 e terminaram de vez com a prisão do líder sertanejo Adeodato.

Em 1917, pouco mais de um ano depois de finda a Guerra do Contestado, inconformados com a solução dada à questão de limites entre Paraná e Santa Catarina, dividindo ao meio o espaço livre, fazendeiros, políticos e habitantes da região paranaense se rebelam e, sob a liderança maior do ex-maragato Cleto da Silva, de União da Vitória, tentam emancipar a área sob a égide de um projetado Estado das Missões e, a coluna armada é dissolvida à força pelo Exército.

A História Regional registra um acontecimento ímpar, que ficou conhecido como “O Levante de 1922”, aqui localizado estritamente na cidade de Porto União. Esta tentativa revolucionária ocorreu de forma combinada com outro levante posterior, de 29 de novembro de 1922, também fracassado, este em Florianópolis, timidamente ligado ao fenômeno do “Tenentismo”, quando forças do Exército tentaram tomar o Palácio do Governo de Hercílio Luz.

Alguns homens do setor meridional da Região do Contestado envolveram-se no movimento revolucionário gaúcho de 1923, mas sem muita significação. Um ano adiante disso, quando já configurado como Território, em 1924 o extremo ocidente do Contestado assistiu a passagem da Coluna Prestes, evento brasileiro que foi, depois, entre 1926 e 1927, intimamente relacionado com a Revolta de Leonel Rocha, em coluna armada que teve passagens na Região do Contestado, envolvendo sua população

A nova população da Região do Contestado, constituída a partir da formação do Território por imigrantes, envolveu-se diretamente na Revolução de 1930 e também na Revolução Constitucionalista de 1932, com a maioria dos habitantes compondo batalhões de voluntários em luta revolucionária ao lado dos apoiadores de Getúlio Vargas. Foram estes os últimos eventos de natureza bélica aqui registrados.

Considerações

Cada um destes 14 eventos bélicos teve início, meio e fim. Todos eles tiveram suas próprias causas e provocaram suas consequências. Envolveram inimigos bem identificados nos lados opostos. Em comum, aconteceram “no Contestado” – antes espaço livre e depois território organizado – no tempo histórico de cem anos, dentro dos séculos XIX e XX, ou, mais especificamente, de 1838 (o primeiro) a 1932 (o último).

Em que pesem as histórias de cada um destes eventos, para nós, o mais importante deles foi o denominado “Guerra do Contestado”, com início em dezembro de 1913 e final em janeiro de 1916, conflito social ocorrido no interior da Região do Contestado, ao sul do Rio Iguaçu e a oriente do vale do Rio do Peixe, em Santa Catarina.

Na atualidade, cada um destes acontecimentos da História do Contestado merece seus próprios “olhares centenários”. É o que acontece hoje, em 1912, com a comemoração histórica dos cem anos do evento “Combate do Irani”. E merecerá seu olhar centenário seguinte, de 1913 a 1916 quando dos cem anos da “Guerra do Contestado”.