Coincidindo com a efeméride do centenário da Guerra do Contestado (1912-1916), violento conflito armado pela disputa de fronteiras (daí a expressão, “contestado”) e posse da terra entre Paraná e Santa Catarina, será lançado nacionalmente, a partir de outubro, o filme “O Contestado – Restos Mortais” (118 min., cor/PB), de Sylvio Back, o premiado diretor de “Aleluia, Gretchen”, “Yndio do Brasil” e “Lost Zweig”. O longa-metragem será exibido em cinco capitais, estreando em Curitiba e Florianópolis (19 de outubro); em seguida, Porto Alegre (26/10), Rio de Janeiro (02/11) e São Paulo (23.11).

Tema já tratado ficcionalmente pelo autor em “A Guerra dos Pelados” (1971), hoje um épico “clássico” sobre a questão fundiária no Brasil, “O Contestado – Restos Mortais” é o inédito resgate histórico e mítico (através do transe de 30 médiuns em cena), iconográfico (inéditas músicas e filmes da época) e oral (a fala forte de descendentes dos rebeldes e de especialistas), dessa autêntica guerra civil nos sertões do sul até hoje submersa em mistério.

Envolvendo milhares de posseiros, pequenos proprietários, comerciantes, autoridades municipais, índios, negros, imigrantes europeus e fanáticos religiosos, e a nada surpreendente repressão do Exército e forças militares regionais associadas a "coronéis" e seus jagunços, o inesperado levante, que provocou a morte de mais de 20 mil pessoas, ensanguentou o centro-oeste de Santa Catarina durante quatro anos, num território do tamanho do estado de Alagoas.

História desconhecida

“Nesses quarenta e um anos que separam "A Guerra dos Pelados" deste "O Contestado – Restos Mortais", filmado entre 2008 e 2010 no próprio teatro de operações do Contestado, uma sensação de lesa pátria nunca deixou de me assombrar” – confessa Sylvio Back.

“Sim, não apenas como cidadão – explica –, mas por ser um cineasta cuja obra é seduzida pela ânsia de reverter falácias, compromissos políticos-ideológicos e o esquecimento militante da história oficial. Enfim, quão esquecidos, ignorados, omitidos, quando menos, minimizados, permanecem personagens, fatos & atos em torno da Guerra do Contestado. Seja junto à própria memória sobrevivente em Santa Catarina e no Paraná, seja pela indiferença com que é tratada no meio acadêmico e de sua explícita pouca importância no ensino escolar, portanto, da historiografia brasileira. O Contestado está se tornando invisível” – adverte Back.

Separatismo

Quando de sua eclosão em 1912, com a morte do monge José Maria, líder dos posseiros, e do coronel João Gualberto, da Polícia Militar do Paraná, no Irani, território da discórdia, na falta de melhores informações e compreensão do inusitado episódio e até pela proximidade da tragédia de Vaza Barris (1895-1896), alcunhou-se o Contestado de "Canudos do Sul".

Ainda que existam semelhanças, principalmente, na crença da chegada de um Messias, no fanatismo dos revoltosos e na feroz reação militar da nova República, seu espectro extravasa em envergadura, recorrência e reflexos nas décadas seguintes (e até hoje), a trágica epopeia de Antonio Conselheiro.

Desde seus aspectos e componentes místicos (a disciplina férrea das “cidades santas” e as ações predadoras do chamado “Exército Encantado de São Sebastião”); e bélico (a convocação e a utilização de 1/3 do exército brasileiro, mais de sete mil homens), ao geopolítico (separatismo, instalação das empresas multinacionais, Brazil Railway Company e Southern Brazil Lumber & Colonization, alimentando sentimento coletivo anti-imperialista), socioeconômico (a implantação do capitalismo na região); ao demográfico (imigrantes alemães, polacos, rutenos, italianos, comprando terras ocupadas por moradores sem título de propriedade).

Terra & poder

“Os rebeldes do Contestado – assevera Back, provecto estudioso do episódio – “almejavam o poder. Tanto é que cogitaram a fundação de um Estado, a “Monarquia Sul Brasileira”, que pretendia, inclusive, anexar o Uruguai ao seu território, e se estenderia até o Rio de Janeiro. O estamento militar da República, vacinado com o desastre de Canudos, a começar pelo presidente, Hermes da Fonseca, ficou furioso com a ousadia.

E, diante do noticiário alarmante da imprensa do Rio de Janeiro, reflexo dos jornais catarinenses e paranaenses, ordenou ao general Setembrino de Carvalho, que vinha de aniquilar revolta do padre Cícero no Ceará, que espanasse os fanáticos catarinenses do mapa. Assim foi executado, a ferro e fogo, implacável cerco e letal destruição dos redutos rebeldes com moderno armamento (depois utilizado na I Guerra Mundial), além do uso de avião pela primeira vez no país” – conclui o diretor dos laureados, “República Guarani” e “Guerra do Brasil”.

Mediunidade

Para rastrear os mais recônditos segredos do Contestado, muitas deles subentendidos nos testemunhos e nos “buracos negros” da história factual, “O Contestado – Restos Mortais” envereda por uma insólita narrativa cinematográfica, que Back chama de antidoc, por situar-se na contramão do discurso documental ora em voga que, majoritariamente, investe no viés “chapa branca”, hagiográfico e turístico de seus temas e personagens. Para tanto, incorpora o transe mediúnico à linguagem do filme como uma instância do inconsciente coletivo do homem, e assim, dos eventos do Contestado sendo redescobertos um século depois.

“O transe mediúnico é pura poesia” – teoriza Back. “No filme a aposta é nessa direção, imiscuir-se, reinventando através da palavra, pela sua verbalização cifrada e entrecortada pela fluidez do tempo e do espaço, no que foi esquecido e no que é preciso lembrar” – completa.

O carisma dos médiuns, extraído de dezessete horas de gravações, acabou se transformando em "influxos condutores do ritmo e da invisibilidade do filme”. Conforme acredita o cineasta, “a incorporação deles em inacreditáveis protagonistas plasmáticos”.

Sylvio Back faz questão de dizer que não é espírita. “Meu filme passa ao largo da onda do “cinema espírita”, que merece todo o meu respeito”. Prefere encarar o transe como algo suprarreal, onde tudo é imaginação e imaginário, “um salto no subterrâneo anímico de pessoas e acontecimentos como se prestidigitação fora rumo ao mais denso dos mistérios da alma humana” – conclui.

Elenco do saber

Compõe o elenco de especialistas na Guerra do Contestado, de fora e de dentro da academia (mestres e doutores), cujos depoimentos permeiam e dão consistência ao discurso histórico e à polêmica de “O Contestado – Restos Mortais”, juntamente com o testemunho de descendentes dos rebeldes, trinta médiuns em transe, a vasta e original iconografia de imagens fixas e em movimento, como do insólito enterro do coronel João Gualberto em Curitiba, e da serraria norte-americana da Lumber em funcionamento, então (1915), a maior da América do Sul, os seguintes especialistas, em ordem alfabética:

Alexandre Assis Tomporoski, historiador (Universidade Federal de Santa Catarina/UFSC); general Aureliano Pinto de Moura, historiador (Instituto Geográfico e Histórico Militar do Brasil–RJ); Celso Martins da Silveira (SC), historiador e jornalista; Delmir José Valentini, historiador (Universidade do Contestado–UNC/SC); Eloy Tonon, historiador (Faculdade Estadual de Filosofia, Ciências e Letras de União da Vitória (PR); Euclides Felippi, historiador (SC); Fernando Tokarski, historiador (UNC/SC); Ivone Cecília D’Ávila Gallo, historiadora (UNICAMP/PUC/SP); João Batista (JB) Ferreira dos Santos (SC), jornalista e radialista; Márcia Janete Espig, historiadora (Universidade Federal de Pelotas–UFPel/RS); Márcia Motta, historiadora (Universidade Federal Fluminense–UFF/RJ); Marli Auras, historiadora (UFSC); Nilson Cesar Fraga, historiador (Universidade Federal do Paraná–UFPR); Nilson Thomé, historiador (UNC/SC); Paulo Pinheiro Machado, historiador (UFSC); Paulo Ramos Derengoski (SC), jornalista e historiador; Pedro Aleixo Felisbino (SC), historiador; Rogério Rosa Rodrigues, historiador (UFSC); Todd Diacon, brasilianista (Kent State University/Ohio–EUA); e Vicente Telles (SC), historiador e músico.

Equipe & Produção

Produzido, filmado no centro-oeste de Santa Catarina, e editado entre 2008 e 2010, o projeto de “O Contestado – Restos Mortais” remonta a 2004 quando Sylvio Back se deu conta da necessidade da emprestar mais repercussão regional e nacional ao magno conflito da Guerra do Contestado. Inclusive, prevendo a data do centenário, neste outubro de 2012, para cuja comemoração o filme acabou em lançamento.

Compõe a equipe de realização do filme, profissionais como o diretor de fotografia e câmara, Antonio Luiz Mendes, que trabalhou com Back em “Cruz e Sousa – O Poeta do Desterro”, ”Lost Zweig” e no inédito, “O Universo Graciliano”; Margit Richter, produtora executiva de seus filmes há vinte e cinco anos; Paulo Henrique Souza (PH), diretor de produção e, também, editor do filme, e o cineasta Zeca Pires, diretor assistente. Back assina as pesquisas, o roteiro e a direção do filme.

“O Contestado – Restos Mortais” é uma produção da Usina de Kyno e Anjo Azul Filmes, com o patrocínio da CELESC (Centrais Elétricas de Santa Catarina), COPEL (Companhia Paranaense de Energia Elétrica) e SANEPAR (Companhia de Saneamento do Paraná), através da Lei do Audiovisual (Agência Nacional do Cinema–ANCINE); e apoio da Secretaria de Estado da Cultura do Paraná, Secretaria de Turismo, Cultura e Esporte de Santa Catarina, FAPEU (Fundação de Amparo à Pesquisa Universitária) e da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). –

Sylvio Back: Biobliofilmografia

Sylvio Back, cineasta, poeta, roteirista e escritor. Filho de imigrantes hún¬garo e alemã, é natural de Blumenau (SC). Ex-jornalista e crí¬tico de cinema, au¬todidata, inicia-se na direção cinematográfica em 1962, tendo realizado e produzido até hoje trinta e sete filmes – curtas, médias e onze longas-metragens: "Lance Maior" (1968), "A Guerra dos Pe¬lados" (1971), "Ale¬luia, Gretchen" (1976), "Revo¬lução de 30" (1980), "Repú¬blica Gua-rani" (1982), "Guerra do Bra¬sil" (1987), "Rádio Auriverde" (1991), "Yndio do Brasil" (1995), "Cruz e Sousa - O Poeta do Des¬terro" (1999); "Lost Zweig" (2003); "O Contestado – Restos Mortais" (2010); e "O Universo Graciliano" (2012, em finalização).

Publicou vinte e um livros (poesia, contos, ensaios) e os argu-men¬tos/roteiros dos filmes, "Lance Maior", "Aleluia, Gret¬chen", "Re¬pública Guarani", "Sete Quedas", "Vida e Sangue de Po-laco", "O Auto-Retrato de Bakun", "Guerra do Brasil", "Rá¬dio Auriverde", "Yndio do Brasil", "Zweig: A Morte em Cena", "Cruz e Sousa – O Poeta do Desterro" (tetralíngue), "Lost Zweig" (bilíngue) e "A Guerra dos Pelados".

Obra poética: "O Ca¬derno Eró¬tico de Sylvio Back" (Tipografia do Fundo de Ouro Preto, MG, 1986); "Moedas de Luz" (Max Limo¬nad, SP, 1988); "A Vinha do De¬sejo" (Geração Editorial, SP, 1994); "Yndio do Brasil" (Poemas de Filme) (No¬nada, MG, 1995), "bou¬doir" (7Le¬tras, RJ, 1999), "Eurus" (7Letras, RJ, 2004), "Traduzir é poetar às avessas" (Langston Hughes traduzido) (Memorial da América Latina, SP, 2005), "Eurus" bilíngue (português-inglês) (Ibis Libris, RJ, 2006); "kinopoems" (@-book) (Cronópios Pocket Books, SP, 2006) e "As mulheres gozam pelo ouvido" (Demônio Negro, SP, 2007).

Com 74 láureas nacionais e internacionais, Back é um dos mais premiados cineastas do Brasil. Sua obra poética, em especial, os livros de extrato erótico, coleciona uma vasta fortuna crítica. Em 2011, recebe a insígnia de Oficial da Ordem do Rio Branco, concedida pelo Ministério das Relações Exteriores pelo conjunto de sua obra cinematográfica e de roteirista. –