Nilson Thomé, historiador

Texto primeiro de “O Velho Caçador – Resumo Histórico da Formação do Município de Caçador até 1950”, elaborado por Nilson Thomé e editado em 1993 pela Prefeitura Municipal de Caçador, em suplemento jornalístico do jornal “A Imprensa”. Cópia do original de linotipia, realizada 20 anos depois, em 2013, no 79º aniversário do Município.

O Município de Caçador completa 59 anos de vida independente, mas isto não significa que este é o seu período histórico. A ocupação humana no Alto Vale do Rio do Peixe tem mais de 110 anos, desde quando a região era tida como território contestado, um espaço livre com domínio e administração reivindicado por Santa Catarina e pelo Estado ó Paraná.

Todas as cidades ao longo do Vale do Rio do Peixe nasceram depois de 1910, planejadas pela Cia. Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande como pontos de colonização. Caçador, ao contrário, não estava nos mapas e nem nos planos da ferrovia; surgiu circunstancialmente, com sementes lançadas por um velho caboclo, habitante do lugar, à revelia das intenções dos gabinetes.

Nos atuais trabalhos de pesquisa que objetivam o resgate da memória do "Homem do Contestado", para se chegar à identidade do "Homem do Oeste Catarinense", resgata-se paralelamente a trajetória histórica de cada um dos grupos humanos que desbravaram os sertões do Contestado, incluindo as terras caçadorenses.

Este trabalho resume a saga dos pioneiros de Caçador, desde quando o desbravador passou a disputar o chão com o índio até chegar a meados dos anos 50, quando, pelo nosso entendimento, a multiplicidade dos fatos exige estudos mais amplos e detalhados.

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Os antecedentes históricos conhecidos de Caçador tem por marco a chegada a estas terras de Francisco Correa de Mello, que veio a disputar espaço com as tribos de índios Kaigang e Xokleng, únicos habitantes do lugar, descendentes de civilizações primitivas das tradições pré-ceramistas e ceramistas Umbú, Humaitá e Taquara, que dominavam o território desde cerca de há dez mil anos atrás, e para os quais o nosso Rio do Peixe era chamado de "Goio-Xim".

Francisco Correa de Mello nasceu em 1816, na localidade de Lagoa das Almas, em Campo do Tenente, Paraná, região que à época pertencia à Província de São Paulo. Quando ainda jovem, por problemas particulares, obrigou-se a deixar a terra natal, acompanhando seus onze irmãos na descida para os já então promissores campos de Lages, seguindo o antigo caminho de tropeiros que ligava São Paulo aos campos gaúchos.

Naqueles tempos, ainda não existia a Província do Paraná (criada em 1853) e os campos de Lages eram reclamados pela Província de Santa Catarina, que os queria de São Paulo, esta quem, na época, promovia o desbravamento do sertão sul-brasileiro, com as frentes pioneiras de Guarapuava, Palmas e União da Vitória, e de Lages, Curitibanos e Campos Novos, e ainda com as primeiras frentes colonizadoras de imigrantes na Lapa e em Rio Negro.

A numerosa família Correa de Mello escolheu a região de Campos Novos para se fixar, requerendo sesmaria da Fazenda Velha do Espinilho (atualmente no município de Monte Carlo). Ali, Francisco Correa de Mello casou com Dna. Felicidade Maria Gonçalves, testemunhando a criação do Distrito de Campos Novos em 1851 pelo Município de Lages; assistiu a anexação desse distrito em 1873 ao Município de Curitibanos. E, em 1879, com a escolha do Rio do Peixe para limite provisório entre as províncias do Paraná e Santa Catarina, sentiu-se atraído pelas terras virgens mais ao Norte.

O casal Francisco e Felicidade já havia constituído sua própria família,  que se compunha de 12 filhos, quando no ano de 1881, na criação do Município de Campos Novos, desmembrado de Curitibanos, foi incentivado a se estabelecer na região setentrional da nova unidade municipalista, para consolidar a posse dessas terras para Campos Novos.

Com alguns irmãos, cunhados e filhos, o ousado homem saiu de Campos Novos, adentrou no Vale do Rio do Peixe, e pela sua margem esquerda subiu rumo às nascentes, procurando um lugar que lhe agradasse. Foi assim que, um dia a expedição exploratória chegou a um local de elevações mais suaves, coberto de pinheiros, com caça abundante, solo fértil, peixe à vontade, e muito pinhão, alimento natural para a criação livre de suínos. Extasiado pela exuberância da maior cachoeira que viu no Rio do Peixe, nas proximidades da qual em poucos dias caçou dezenas de antas, veados e porcos-do-mato, proclamou que aquele seria o seu lugar. uma vez que não poderia ir mais adiante, pois estaria ingressando em terras que eram administradas pela província do Paraná.

Do acampamento provisório no salto, que mais tarde chamaria de Salto Bom Sucesso, Francisco Correa de Mello escolheu o local para a futura morada. Ali deixou um de seus irmãos e os filhos que o acompanharam. De um pinheiro fez uma canoa, e desceu o Rio do Peixe de volta a Campos Novos, para buscar o restante da família. Nesta viagem, denominou dois pequenos rios, afluentes do Rio do Peixe: o Rio Veado e o Rio das Antas; mais adiante, denominou o Rio das Pedras, e em cada foz deixou um dos seus parentes.

Em Campos Novos, segundo as leis do Império, requereu a posse das terras, às quais deu o nome de Fazenda Faxinal do Bom Sucesso. De regresso, com o resto da família e outros parentes, construiu a primeira casa. A Fazenda implantou-se como propriedade de cultura, onde se vivia da caça, da pesca, do plantio de cereais, da criação de gado, suínos, galinhas, soltos nos pinhais.

Nesta mesma época, as terras da outra margem do Rio do Peixe, na altura dos campos de São João (hoje Matos Costa) e São Roque (hoje Calmon), já estavam sendo ocupadas pela também numerosa família Carneiro, que incentivada pela Província do Paraná, através doa municípios de União da Vitória e de Palmas, implantava suas raízes na Fazenda Campina, na Fazenda Cachoeira e na Fazenda Rio do Peixe. No final do século passado, os Carneiro deram abrigo a diversas famílias de imigrantes, egressas das frentes pioneiras da colonização alemã do Paraná, com as quais logo se mesclaram.

Em abril de 1894, depois dos episódios do "cerco da Lapa", a família pioneira assistiu a passagem por suas terras de uma das colunas do líder da Revolução Federalista, Gumercindo Saraiva, que se retirava para o Rio Grande do Sul. Tanto os "maragatos" como os "pica-paus" causaram grandes estragos na região com o deslocamento de numerosas tropas federalistas e republicanas, que não só saqueavam fazendas como não exitavam em liquidar adversários pela degola ou fuzilamentos sumários.

De 1907 a 1910, a família Corre a assistiu os trabalhos de construção da estrada de ferro, que com sua permissão atravessava em paz as terras da fazenda. A exemplo da família Carneiro, não permitiu que a companhia ferroviária se apossasse do seu quinhão, mantendo os direitos de propriedade. Foi com orgulho que o velho Francisco, já de cabelos e barbas brancas, viu a passagem do primeiro trem em 1910, e comoveu-se com a denominação de Rio Caçador à estação ferroviária, pois ele era o "Caçador" que fazia as esperas de caça do pequeno riacho, afluente do Rio do Peixe que se constituía em divisa natural com as terras da família Carneiro.

Caboclos rudes e valentes, nativos, os Correa receberam o primeiro "estrangeiro", o alemão Guilherme Gaertner, que se estabeleceu com armazém no quadro da estação ferroviária em 1911, seguido de Nicola Codagnone. Aliás, a concessão original para explorar comércio na estação era do italiano, então residente em União da Vitória, que a repassou para Gaertner, descendente de germânicos.

A família dos Correa sofreu o primeiro revés nestas terras em 1914. Discordando do fanatismo, e não querendo se envolver com os sertanejos revoltosos na Guerra do Contestado, tiveram suas casas incendiadas. Decididos, passaram a apoiar as forças militares até meados de 1915, quando terminaram os combates aqui, e só então reconstruíram suas moradias. Francisco permitiu que nas proximidades da estação ferroviária o Exército Brasileiro montasse acampamento e construísse um campo de aviação.

Homologado o Acordo de Limites entre Paraná e Santa Catarina, a 25 de agosto de 1917, Santa Catarina criou simultaneamente quatro municípios, para ocupar definitivamente o Espaço Livre do Contestado: Mafra (desmembrado de Rio Negro), Porto União (desmembrado de União da Vitória), Cruzeiro (que depois mudou o nome para Joaçaba) e Chapecó, mantendo os municípios de Curitibanos, Campos Novos e Lages. Na ocasião, foi extinto Itaiópolis

Por Resolução de 1917 da administração catarinense, neste primeiro momento criaram-se no Município de Porto União, os distritos de Porto União, (sede), São João dos Pobres (hoje Matos Costa) e Vila Nova do Timbó, extinguindo-se os distritos de Taquara Verde e de Nova Galícia, herdados do Paraná.

A partir de 1919, empresas colonizadoras da estrada de ferro começaram o processo de colonização das terras marginais à ferrovia, no outro lado do Rio do Peixe. Os Correa assistiram a chegada dos novos vizinhos: Pedro Addel e Martinho Trindade. Os primeiros colonos, descentes de imigrantes italianos: Maximiliano Zampronio, Silvio Hurso, Zilio Scolaro, João Palermo, Domingos Sorgatto, Bortolon, e a numerosa família Bazzeggio. Com o novo povo chegando, Francisco Correa de Mello permitiu a instalação em suas terras, nas proximidades da estação ferroviária de Virgilio Formighieri, Carlos Sperança, Gabriel Dias, Miguel Cury, João Zortea, e outros. Em função disso, gradativamente, os integrantes da família Carneiro também se aproximaram, chegando primeiro: Ferminiano Lima, Osório Carneiro, Genésio Costa, Gumercindo Carneiro, Osório, de Paula Timmermann, Juvenal Fagundes, Luiz Tortatto e José Gioppo.

No ano de 1920, o velho Francisco chorou a morte de sua querida esposa Felicidade. Então, atendendo aos clamor dos novos moradores do lugar, fez a partilha de suas terras distribuindo-as em quinhões, aos filhos, permitindo-lhes que as revendessem aos recém-chegados. Francisco sonhou com uma cidade. Contratou para a medição das partes, dois topógrafos, Victor Kurudz e Francisco Busato, reservando meia-quarta de terra no centro da sua imaginação, para a edificação de uma igreja, como lhe havia pedido anos antes Frei Rogério.

Já em 1922 caíam os pinheiros para dar lugar às novas casas de madeira, formando-se o lugarejo denominado Rio Caçador, que recebia a primeira escola, a de Marcírio da Cruz Maia, e muitos novos moradores. No outro lado do Rio do Peixe, crescia também a Vila Caçador (esta depois denominada de Santelmo), implantada pela estrada de ferro.

Na margem esquerda do Rio do Peixe em 1923, o Município de Campos Novos criou o Distrito de Rio Caçador, desmembrado do Distrito de Rio das Antas. Em 1932, o Distrito de Rio Caçador passou para o Município de Curitibanos, enquanto que o de Rio das Antas continuou a ser de Campos Novos.

Em 1923, o Município de Porto União voltou a criar o Distrito de Taquara Verde e, em 1928, criou o Distrito de Santelmo, separado do Distrito de Rio Caçador apenas pelo Rio do Peixe, na outra margem.

Caçador recebeu nova frente a ocupação a partir de 1923, quando a empresa colonizadora Irmãos Coelho de Souza recebeu do Estado de Santa Catarina uma gleba de 9 mil alqueires na Serra da Taquara Verde, em pagamento pelos trabalhos de construção da rodovia que ligou Lages ao Rio Canoas (primitivo traçado da BR-282). Taquara Verde era distrito de Porto União, mas os irmãos Coelho de Souza iniciaram a colonização a partir de Videira, e só mais tarde construiriam a estrada de rodagem ligando Taquara Verde a Caçador, com o que foi inevitável a anexação de Taquara Verde a Caçador em 1934. Nesta serra, os novos colonos vizinharam com outra grande família, liderada por Thomaz Gonçalves Padilha, que já ocupava a Fazenda Torres em milhares de alqueires, e que era ligada por laços íntimos aos Correa.

Em outubro de 1930, a população concentrou-se na Estação Ferroviária para saudar a caravana vitoriosa de Getúlio Vargas, que de trem subia do Rio Grande do Sul para São Paulo. Vargas seria o segundo presidente da República a estar em Caçador, pois este chão recebeu, a 3 de abril de 1909, Affonso Penna, que veio pessoalmente inaugurar a estação ferroviária no Taquaral Liso, a que recebei o nome de Presidente Pena, a poucos quilômetros da estação de Rio Caçador, hoje na divisa com Calmon.

A comunidade se formava. Os colonos plantavam neste chão fértil. As serrarias se avolumaram. A cidade nascia. E Francisco acompanhava tudo com interesse. Suas antigas terras já estavam cortadas por ruas e divididas em quadras. E nascia o movimento popular que tinha a intenção de formar o novo Município, de tornar este torrão independente, para seguir seu próprio caminho, o que veio acontecer em 25 de Março de 1934.

A História de uma sociedade se constrói a partir dos marcos referenciais da sua evolução, sem o esquecimento das atividades paralelas. O período de 1928 a 1934 assinala momentos de grandes realizações, como: a construção da primeira usina hidrelétrica por Attilio Faoro, servindo a vila com iluminação elétrica; a abertura da estrada de rodagem Caçador-Lebon Régis-Curitibanos com o esforço das famílias Paganelli e Vivan; a fundação do Clube 7 de Setembro, do Grêmio das Margaridas, da Associação Agrícola de Caçador; a descoberta de petróleo na Taquara Verde pelos irmãos Coelho de Souza; a criação da Paróquia de São Francisco de Assis, integrante da Diocese de Lages; a criação da Comarca Judiciária de Caçador.

Mas, Francisco Correa de Mello não viu a festa da independência da sua cidade. Velho, cansado, doente, faleceu em 1933, aos 117 anos de idade, deixando sua estirpe de 12 filhos, 96 netos, mais de 300 bisnetos, e que no final do século XX reunia mais de 5 mil pessoas, então quase dez por cento de toda a população caçadorense.

O mesmo Rio do Peixe, que ao longo do vale dividiu povos irmãos, como em Joaçaba/Herval d'Oeste, Capinzal/ Ouro, Piratuba/Ipira, aqui, ao contrário, uniu as duas comunidades através de uma ponte de madeira construída por Pedro Bortolon em 1928: a de Rio Caçador, na margem esquerda, e a de Vila Caçador, na margem direita.

Até 1954, as terras hoje pertencentes a Caçador eram administradas pelos municípios de Porto União, Curitibanos, Campos Novos e Cruzeiro (hoje Joaçaba), cada um com seu quinhão.

Pelo Decreto Estadual 508, de 22 de fevereiro de 1934, foi criado o Município de Caçador, formado pelos distritos de Santelmo, Taquara Verde e parte de São João dos Pobres (região de Adolfo Konder), todos de Porto União; pelo Distrito de Rio Caçador, de Curitibanos; pelo Distrito de Rio das Antas, de Campos Novos; pelo Distrito de São Bento (região de Macieira), de Cruzeiro.

O novo Município ficou então formado e dividido em três distritos: o de Caçador (Sede), com a união de Santelmo e Rio Caçador, e mais a parte de São João dos Pobres; o de Taquara Verde, e o de Rio das Antas (ao qual pertencia na época o atual Município de Videira, incluindo Iomerê).

Pela falta de registros mais precisos, pode-se cometer injustiças com muitos pioneiros do lugar, que sob a liderança de Leônidas Coelho de Souza, envolveram-se direta e indiretamente no movimento pró-emancipação da comunidade. Entretanto, se pelo esquecimento alguns não são lembrados, há nomes que deixaram registradas suas marcas. Além dos já citados, dentre as numerosas famílias de descendentes de imigrantes, oriundas do Rio Grande do Sul e do Paraná, encontramos nas vilas Caçador e Rio Caçador: Abdalla, Assef, Thomé, Farfud, Savóia, Webber, Lana, Novack, Gutoski, Bedin, Roveda, Corbelini, Chrisanto, Schmidt, Timm, Dreyer, Cavazotta, Padjara, Zarur, Müller, Stveteran, Bervanger, Bento, Ciffro, Pressanto, Castelli, Deboni, Zanoni, Madalosso, Thomasi, Tesser, Bleichvel, Martelli, Gazziero, Motta, Boff, Calza, Edder, Weiss, Strobach, Badotti, Sartori, Marcari, Sinhori, Krieger, Capellari, Wordell, Anjos, Lieber, Hoffmann, Liszewki, Bressiani, Zanotti, Bertotto, Visloski, Balena, Kleist, Socha, Favarin, Chiminassi, Castanheira, Werle, Salvador, Henne, Reichmann, Binder, Bendlin, Röecker, Orso, Veronezi, Bernardelle, De Paris, Klaumann, Haro, Zanatta, Schubert, Insberg, Beckert, Cury, Haymussi, Coelho, Santi, Pedrosa, Ratier, Zorzi, Fontana, Mendes, Picolli, Weizmann, Kraus, Conci, Burgard, Mattos, Santin, Dreyer, Bello, Strobach, Gomez, Escker, Bernardelle, Farh, Paezkowski, Jurkevytih, Criminácio, Buchsteiner, Liswizki, Bueno dos Reis, Zanki, Brusco, Figueroa, Lessing, Weigert, Damo, Lins, Garcia, Ribas, Justus, Dalla Lana, Grazziottin, Barichello, Moreira, Abrahão, Martinez, Campello, Zandavalli, Benetti, Dacol, Raizel, Muncinelli, Varella, Honaiser, Magalhães, Schimitt, Vierkon, Balvedi, Godinho, Joaquim, Francio, Coelho e Cachoeira, todas estas com chegada a Caçador, seguramente, antes de 1934.

Mais ligadas aos fazendeiros e aos caboclos da região, deixaram importantes registros neste tempo inicial, anterior a 1934, as seguintes famílias (além das já citadas): Lara, Almeida, Nascimento, Driessen, Alves, Moraes, Rocha, Thibes, Ribeiro, Cordeiro, Carlim, Sampaio, Pereira, Proença, Paes, Granemann. Castilho, Godoy, Araújo, Gomes, Freitas, Rosa, Stephanes, Rauen, Leite, Pontes, Oliveira, Borges, Collaço, da Luz, Santos, Fernandes, Silva, Rodrigues, Lima, Cruz, Teixeira, Prado, Chagas, de Jesus, Duarte, Ferreira, Castilho, Palhano, Mera, Santanna, Xavier, Coutinho, Pinheiro, Medeiros, Assumpção, Fonseca, de Paula, Bernardo, Albuquerque, Conceição, Antunes, Vieira, Lemos, Mattos, Abreu, Queiroz, Nunes.

Com a emancipação do Município, o progresso explodiu em todos os campos: em apenas dois anos o povoado triplicou de tamanho, e logo estava ligado por estradas com Curitibanos, Porto União e Videira. Surgia assim, entre as colinas um novo polo microrregional. Com a implantação em 1928 do Ginásio Aurora, na década ele 30 Caçador se firmou como centro geo-educacional do Oeste, na saga dos educadores Dante e Albina Mosconi.

Antes de ser criado o Ginásio Aurora, em 1928, Albina Mosconi já dirigida uma pequena escola, que depois passou para Apolonia Capitulina Milis. Ali no Santelmo, em 1929 era criado o Tiro de Guerra nº 568 (que em 1946 transformou-se em Tiro de Guerra nº 172), um primeiro grupo de escoteiros, um Curso Comercial (para formar "guarda-livros") e uma Escola Normal. Era o impulso para a criação, em 1934, da primeira escola pública, o Grupo Escolar Prof. Paulo Schieffler, e para o abrigo às catequistas da Congregação das Irmãs de São José, que em 1936 fundaram o Colégio Nossa Senhora Aparecida.

No decurso das décadas de 1930 e 40 a comunidade viveu o progresso do ciclo da madeira que se iniciava, atraindo famílias à nova cidade em ritmo contínuo e crescente, com o que mais marcos referenciais marcaram a evolução, merecendo registro, entre outros: a fundação da Associação das Damas de Caridade em 1936; as instalações dos hospitais São Luiz (1935), São Francisco (1938) e São José (1942), que funcionaram até 1957; a fundação do Hospital de Caridade e Maternidade Jonas Ramos em 1944 e sua inauguração em 1951; a chegada de Primo Tedesco e seu pioneirismo na fabricação de papel e no reflorestamento; a associação da família Faoro e Primo Tedesco para o fornecimento de força e luz a partir de 1942 à toda cidade; a instalação do Cinema Apolo; a implantação do Campo Experimental de Trigo; a  fundação da Associação Comercial e Industrial de Caçador (1941), a construção da nova estação ferroviária, em substituição à primitiva destruída por incêndio.

Albino Deboni lança seu livro "Brancas Nuvens" (1946), João Batista Sanches lança "O Poeta do Povo" (1947) e Victor Peluso Júnior contribuiu com o "Dicionário Corográfico de Caçador" (1947). Era fundado o Rotary Club; construíram-se mais pontes sobre o Rio do Peixe; criou-se a agência postal-telefônica, o Posto de Puericultura, a Biblioteca Pública Municipal, o aeroclube; construiu-se a cadeia pública, o estádio de futebol; abriram-se melhores estradas para o interior. Era o tempo do Banco da Ind. e Com., do Banco INCO e do Meridional da Produção. Fundaram-se: a Rádio Caçanjurê, o Clube 1° de Maio, o jornal A Imprensa de Cid Gonzaga.

Somando-se às décadas anteriores, o ingresso nos anos 50 foi de igual desenvolvimento. Novas famílias já haviam chegado antes a estas plagas, destacando-se na indústria e no comércio, como: Maffessoni. Berardi, Granzotto, Thomé, Poletto, Adami, Pedrassani, Hahn, Marini, Haymussi, Fezer, Amorim, Fleck, Biasi, Binotto, Caramori, Lührs, Zardo, Veronezi, Zanchettin, Staskowian, Velasques, Ramos, Natter, Salamoni, Schneider, Graeff, Schultz, Heck, Sabedot, Chiarello, Pierdoná, Coldebella, Caron, Casagrande, Bordignon, Comazzetto, Basso, Baú, Freiberger, Fontana, Poppia, Grando, Fabiani, Berger, Christ, D'Agostini, Buscaron, Canalli, Petry, Peretto, Rossetti, Guzella, Gemelli, Pivatto, Potrick, Olsen, Matias, Menta, Machado, Lebelein, Linhares, Hartmann, Forestti, Natter, Dalbosco, Figueiredo, Bizinella, Ceccato, Dalazém, Costenaro, Dupont, Groth, Tartarotti, Coscodai, Elmessane, Dalmédico, Buba, Marins, Mandelli, Paupitz, Filipon, Pavelski, Pegoraro, Picoli, Piccinini, Moro, Menegazzo, Reginatto, Menzel, Dourado, Kimak, Soletti, Rotta, Zupan, Perin, De Carli, Vicentin, Kirschner, Spuldaro, Dalcanalle. Machiavelli, Colla, Werle, Petrikowski, Telöken, Moschetta, Leão, Haudsch, Te1k, Fagherassi, Ferroni, Ros, Xavier, Cassol, Mingotti, Morona. Lopes, Riedi, Gaviolli, Lazari, Crestani. Bortolini, Martello, Neves, Kurtz, Zini, Reinehr, Rossetti, Fauth, Zandavalli, Bressan, Zart, Rupp, Braga, Sperotto, Tombini, Borghetti, Côas, Dalmas, Bolson, Giacomazzi, Kool, Pigozzi - estas nominadas entre centenas de outras que de 1930 a 1950 também ajudaram a implantar o progresso, liderando empreendimentos. Outros sobrenomes hão de aparecer.

Os novos habitantes, na maioria descendentes de imigrantes alemães, italianos, poloneses, e árabes, desenvolviam os mais diversos ramos de atividades, ligados à indústria, ao comércio, à prestação de serviços e à agricultura, mas sempre tendo por base a exploração madeireira, pinho e imbuia que cobriam todo o território, que veio a constituir a maior fonte de riqueza da comunidade, a ponto de em 1948 Caçador ser declarado "o maior exportador de pinho da América do Sul", tal a quantidade de madeira produzida.

Na década de 30, para melhor administrar seu território, o Município de Caçador criou novos distritos: o de Vitória (parte do hoje Município de Videira), o de Rio Preto (depois chamado Princesa Isabel e hoje Distrito de Ipoméia, pertencente a Rio das Antas), e o de São Luiz (depois Iomerê, demembrado de Videira).

Em 1943 foi criado o Município de Videira, ao Sul, e Caçador cedeu-lhe o Distrito de Vitória e de São Luiz. Em 1948, Videira arrebanhou o Distrito de Rio Preto, que lhe foi anexado; todavia, este distrito voltou a pertencer a Caçador em 1955. Em 1958 foi criado o Município de Rio das Antas, quando Caçador perdeu então o seu Distrito de Rio das Antas, e mais o Distrito de Ipoméia (ou Rio Preto). Antes de perder os distritos de Rio das Antas e de Ipoméia o Município de Caçador criou um novo Distrito: o de Macieira, em 1953, e entrou na década de 60 com três distritos: Caçador (Sede), Taquara Verde e Macieira, que constituíram a divisão administrativa até 1993, quando Macieira se emancipou.

O dinamismo da gente caçadorense fez com que se desenvolvessem também novas atividades na comunidade, ampliando as lides fabris nos ramos mecânico, metalúrgico, coureiro-calçadista, papel-papelão, alimentos derivados e beneficiados de madeira.

Dos anos 20 até esta década, somaram milhares as pessoas que imigraram de diversas áreas do Sul do País, estabelecendo-se em Caçador. Com o constante desenvolvimento, o centro das atenções não era mais os Correa, os Padilha, os Carneiro e suas clãs pioneiras, mas sim. braço-forte habitante do lugar, brioso homem trabalhador, do empilhador de tábuas ao rico capitão da indústria, que, juntos, solidificariam Caçador como "Capital Industrial do Oeste Catarinense".

A partir de 1950 multiplicaram-se os marcos referenciais do desenvolvimento social, político, econômico e cultural da comunidade, com o que Caçador ingressou na era mais contemporânea da sua história. Os registros das etapas vencidas e das realizações merecem estudo à parte para a valorização dos detalhes. A pesquisa e revelação do passado mais recente constitui-se, assim, num novo e gratificante desafio.

Para nós, caçadorenses de 1993, setenta anos depois da criação da vila de Rio Caçador [1923], fica a alegria de ainda desfrutarmos o convívio de grande número de desbravadores, que, com seus descendentes, aqui permanecem para ilustrar os fatos do passado, como testemunhas-vivas de um tempo que, para os pioneiros, continua sendo presente.

Caçador, 25 de março de 1993.